Artigo: Caminhos de Areia

O poeta luso-brasileiro Bento Teixeira, ainda em 1601, versava sobre os grandes desafios da expedição portuguesa para a reconquista do Maranhão. O primeiro desafio era “amansar” a população indígena “bárbara e insolente”; o segundo era “acossar o francês”, objetivando expulsá-los das terras maranhenses. Primeira Cruz teve um papel indiscutivelmente importante. Com uma história singular, o lugar serviu de acampamento da expedição luso-espanhola para a reconquista do Maranhão. Daqui, a mestiçagem entre brancos e índios, a literatura invejável e os caminhos de areia sinuosos mantiveram, por muito tempo, a natureza anacrônica do desenvolvimento local.

Os caminhos de areia ora firmados sobre veículos traçados, ora firmados pelos pés dos nativos da nossa cidade, romperam barreiras significantes para o desenvolvimento logístico do município, entretanto, a recente promessa da construção de uma estrada pavimentada alegrou a cidade da mesma forma que Jerônimo de Albuquerque se alegrou, quando com sua capitania, erigiu uma cruz às margens do Rio Periá, fundando um acampamento para a recarga das energias de seus soldados e recrutamento de índios para a batalha de Guaxenduba.

Apesar disso tudo, não podemos negar que a construção da Rodovia MA320, para além de um sonho não tão distante, é fruto da sensibilidade do Governo Maranhense no rompimento de um isolamento terrestre histórico em Primeira Cruz. Contudo, as grandes distâncias, em areias quentes, nunca foram grandes desafios para nós, residentes da cidade, muito menos para os antigos nativos, desde a ocupação portuguesa da nossa terra; da nossa catequização e do casamento entre índios imposto pelo catolicismo; do recrutamento militar e do estupro de nossas nativas.

Os olhares contemporâneos, agora, se voltam para a exploração das potencialidades turísticas, econômicas e industriais e os caminhos de areia, apesar de muito importantes, já não cabem mais para a Primeira Cruz do futuro. O rumo certo que tomamos, não desprendeu do poder público, mas da brava coragem mestiça e da gentileza das sementes que vingaram, apesar de mal plantadas.